terça-feira, 13 de março de 2007

De volta a vida


De Volta a Vida
A luta do povo Potiguara contra a indústria canavieira.
Por Otto Mendes, missionário do CIMI-NE

A grande esperança deste triste e atual presidente brasileiro, é uma formula que há mais de quinhentos anos vem sendo aplicada no Brasil: a monocultura e a grande propriedade. Nunca deu certo, só trouxe desigualdade e exclusão. Mas, Estados Unidos, Europa e Japão (a China tem interesse) querem o etanol e o biodiesel brasileiro, com o argumento de que isso vai trazer melhorias sociais no Brasil, e o governo e a mídia estão exultantes. O Brasil está salvo! Poucos na mídia procuram fazer uma análise mais profunda ou algum tipo de questionamento sobre o assunto, e depois tem outra coisa: como um modelo que continua mantendo o país no esgoto, há quinhentos anos, pode funcionar? Lula já deixou claro qual é o lado que ele ocupa nesta história, que é o lado do mercado financeiro, do neoliberalismo, do latifúndio e do crescimento a qualquer custo. Poucos foram os que estão refletindo sobre o custo social embutido na fabricação de etanol e de biodiesel, que para atender a demanda que está posta, precisará produzir mais de um trilhão de litros por ano. Para atingir este objetivo, as terras necessárias para a monocultura de cana-de-açúcar passaria dos atuais 7 milhões de hectares para 30 milhões, sem contar as áreas destinadas ao biodiesel.
As conseqüências desta situação terrível será um aumento da concentração fundiária, a ameaça a soberania alimentar, pois os tanques ianques estarão cheios, mas nossas barrigas mais vazias, êxodo de homens e mulheres, com isso o aumento das favelização da população, destruição do meio ambiente por causa das queimadas, da derrubada das matas e do uso excessivo de agrotóxico, pois a cultura da monocultura está diretamente relacionada ao uso sistemático e extensivo de agrotóxicos. A Mata Atlântica foi dizimada pelo agronegócio, principalmente da cana-de-açúcar, e hoje não resta 10% de sua área original.
O povo Potiguara, que vive a no extremo norte da Paraíba (a área ocupa três municípios: Rio Tinto, Marcação e Baia da Traição), a 70 km de João Pessoa, sabe a tragédia que é a monocultura canavieira. Há muito que usinas da região invade suas terras, inclusive ameaçando os indígenas, derrubando suas matas - milhares de goiabeiras, mangueiras, mangabeiras e cajueiros foram derrubados- diminuindo a áreas de roça, degradando o solo, envenenando os manguezais onde os indígenas coletavam mariscos, caranguejos, completando a alimentação de suas famílias e gerando renda. Com isso, muitos Potiguara estão sem trabalho, e os três municípios que abrange a área indígena não tem como absorver esta mão-de-obra ociosa. A fome e a desesperança caiu sobre o povo Potiguara, que muitas vezes para levantar uma roça em suas próprias terras tinham que pedir permissão para as usinas!
No dia 03 de agosto de 2003, a usina Japungu, para aumentar sua área de canavial, em uma terra em frente da cidade de Marcação, onde a usina acima citada já havia desmatado uma grande área de floresta, resolveu passar um trator por cima das roças dos Potiguara, que então se revoltaram e resolveram retomar aquela área. Desde então, uma mudança na qualidade de vida daqueles homens e mulheres aconteceu, pois eles mudaram a cana-de-açúcar pela policultura, plantando feijão, macaxeira, inhame, tomate, mangabeiras, goiabeiras, cajueiros, mangueiras, mandioca, pimentão, pimenta e outros produtos, além de poderem voltar a recolher alimentos nos mangues, pois sem a cana não havia mais veneno. Toda vez que vamos lá, na Aldeia Três Rios (como foi denominada a área de retomada pelos Potiguara), ficamos maravilhados em perceber esta mudança. Casas foram construídas, eles têm luz e água e estão felizes, pois a vida voltou para quem estava quase morto. A Aldeia Três Rios virou uma espécie de vitrine para os indígenas, o exemplo a ser seguido e um argumento incontestável contra a monocultura de cana, que só desgraça trouxe para este povo.
Agora, seguindo o exemplo de seus parentes, os indígenas de Monte-Mór, no município de Rio Tinto, resolveram lutar por seus direitos e expulsar os invasores de suas terras, retomando outra área indígena invadida pelas usinas canavieiras, que já começaram a usar o argumento de que a plantação e beneficiamento da cana é ponto estratégico para o país, evitando o debate sobre se o ganho paga o enorme prejuízo ambiental e humano. Os usineiros ameaçaram os indígenas para obrigá-los a sair da área, mas os Potiguara estão decididos, ali é a casa deles e dela eles só saem mortos. As novas roças se sobressaem no meio da monotonia da cana, devolvendo para aquelas famílias a perspectiva de uma vida digna, sem fome, sem violência e a alegria de pisar na sua terra. A luta dos Potiguara para recuperar suas terras originais e expulsar os invasores é um símbolo da luta que todos nós vamos enfrentar para podermos barrar projetos que só beneficiarão poucos em detrimento da maioria e do maio ambiente.
Os Potiguara podem ser mais um dos exemplos de que outro mundo e outra consciência social e econômica não é só possível, ELA JÁ EXISTE!

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