quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Questão da violência

Por Otto Mendes
O Brasil parou chocado com o assassinato do pequeno João Hélio, e a sociedade com o apoio da mídia e de alguns políticos querem uma punição mais severa para crimes tão horrendos, o choque da terrível morte inflamou os corações dos brasileiros. O Senador Antônio Carlos magalhães apareceu no Jornal nacional dizendo que não interessa se a pessoa tem 60 anos ou 16 anos, crimes bárbaros devem ser punidos severamente. Concordo com os cidadãos e com o senador, mas queria dizer ao caro político, que existe um outro tipo de crime tão bárbaro quanto o que foi cometido contra aquela criança: a corrupção! Políticos, empresários, empreiteiros, banqueiros, juízes, funcionários públicos e policiais roubam o dinheiro do povo e tem a certeza de que não serão punidos NUNCA!
Questão social
A raiz das desigualdades sociais e da violência está no problema da corrupção, pois o dinheiro saqueado do povo brasileiro deixa de ser usado em beneficio da sociedade. nem as elites, nem politicos tem interesse em acabar com este mal, pois foi a corrupção que erigiu as grandes fortunas do Brasil e é através dela que as elites se mantem no poder. O Congresso Nacional cria leis onde só os pobres é que podem ser presos, os ricos nunca!
Se os milhares de excluídos brasileiros fossem considerados, pelo governo e as elites (tudo a mesma coisa), cidadãos de verdade e tivessem acesso a educação e saúde de qualidade e participassem da distribuição dos beneficios que a modernidade disponibiliza para poucos, se o governo e a sociedade olhassem estes excluidos como gente, talvez o pequeno João Hélio ainda estivesse vivo! Mas, o dinheiro que deveria beneficiar, principalmente as populações mais carentes, vai, através da corrupção, parar no bolso das elites do país e com isso o Brasil não consegue sair do lugar. O que sobra para investir é canalizado para atividades que não trazem nenhum beneficio para o país, ao contrário só prejuízos, como, principalmente, o agronegócio, uma atividade econômica que prevalesse no Brasil a 500 anos, e os pobres vão ficando cada vez mais despossuídos.
Por tudo isso, a maior luta do povo brasileiro é transformar a corrupção em crime hediondo, pois quando um safado deste rouba, o resultado é gente morrendo nos corredores dos hospitais públicos, morrendo de fome e sede, cidadãos sendo excluídos da sociedade, crianças entrando para o mundo do crime. Um corrupto é pior que qualquer outro criminosos, porque ele é genocida, merece uma punição severa. Essa escória mantem a maior parte da população brasileira sem acesso a educação de qualidade para não perderem seus privilégios, pois um povo educado nunca ia aturar esses vermes que infestam o Congresso Nacional( o
ninho principal da escória), o Executivo e o Legislativo.
A lei só mudará se nós, cidadãos brasileiros formos para as ruas pressionar esta escória a votar leis que NOS beneficiem. Eles nunca farão isso por vontade própria.
Vamos combater esses marginais!
Só depende de nós!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Pacto com a Morte

Vale a pena ler este texto de Mário Santayana sobre a questão da viôlencia.
Aproveitem!!!


O pacto com a morte

Neste momento em que parlamentares e jornalistas incentivam uma reação irracional contra os assassinos do pequeno João Hélio, levantando até idéias como a pena de morte, vale discutir como são construídos os criminosos no Brasil.

Mauro Santayana

Quando uma jovem da alta classe média paulista – Suzana Richthofen - planejou e participou do assassinato de seus pais, trucidados, enquanto dormiam, a golpes de barras de ferro pelo namorado e o irmão dele, ninguém pediu a pena de morte para a moça. Ao contrário: surgiram comunidades de internautas, dizendo que a amavam. Da mesma forma, quando um índio pataxó foi queimado, enquanto dormia, para o divertimento de rapazes da alta classe média brasiliense, respeitável juíza do Distrito Federal quis desclassificar o crime, a fim de evitar que fossem levados ao tribunal do júri. Algumas das pessoas de bem da capital da República se mobilizaram, a fim de desculpar os assassinos. Eles estavam apenas querendo “brincar” com o índio. Depois se soube que os rapazes estavam sendo privilegiados na prisão: um deles saía para freqüentar o curso universitário e, entre o fim das aulas e o retorno a uma cela especial da penitenciária, tomava cerveja com os amigos.
É claro que nos revolta muito mais a morte de uma criança de seis anos, da forma brutal como ela se deu, do que a execução de duas pessoas de meia-idade, e a de um remanescente dos bravos tapuias do litoral da Bahia, membro de pequena tribo que escapou do extermínio secular.
A morte por nada
O que choca, ainda mais, no caso do menino João Hélio, é a extrema precariedade da vida nas grandes cidades brasileiras. Morre-se sem nenhuma explicação, como se todos nós andássemos com uma pistola carregada, jogando a roleta-russa. Quando menos se espera, a única bala fica diante do percussor, e o dedo invisível das circunstâncias dispara o gatilho. Se a mãe do menino houvesse passado pelo local cinco minutos antes, ou cinco minutos depois, talvez nada houvesse ocorrido. Ao sair do centro espírita naquele exato momento e ao escolher aquele trajeto, a senhora estava, para seu desespero, entregando o filho ao despropositado martírio.
Todos nós nos sentimos atingidos pelo crime, mas não temos a mesma carga de sofrimento e de ódio que atinge os pais do garoto. Eles têm todo o direito de exigir punição mais severa para os criminosos – até mesmo a morte – incluída a do menor que participou do assassinato. Se pensarmos no que sentiríamos se isso ocorresse a qualquer um de nós, não há limite para o ódio, não há como conter o desejo de vingança pessoal. Qualquer pai seria capaz de matar o assassino de seu filho, ou de sua filha, como tem ocorrido. A senhora, que matou a facadas o adolescente que violentara seu filho pequeno, fez o que muitos de nós seríamos capazes de fazer.
Quando crimes tão bárbaros são cometidos há uma reação coletiva irracional. É o que está ocorrendo agora, quando se pede a pena de morte para os assassinos do pequeno João Hélio. E essa reação é tão mais despropositada quando parte de alguns dos mais poderosos meios de comunicação de massa em nosso país. É o momento da desforra de parte da classe média contra os que defendem os direitos humanos. Jornalistas e parlamentares recorrem aos adjetivos mais fortes, arregalam os olhos, gesticulam, pedindo que o Estado exerça vingança implacável contra os assassinos. Eles se esquecem de que todos nós, criminosos ou não, já estamos condenados à morte. E se esquecem também de que a execução de qualquer criminoso, seja jovem ou velho, não é exatamente um castigo. A agonia de um condenado dura, quando muito, alguns segundos. Depois disso, é o nada. A prisão por bom tempo, nas condições carcerárias do Brasil de hoje, talvez seja punição bem pior do que a morte.
A construção de um bandido
Como se faz um criminoso? Os criminosos, salvo os casos de psicopatia congênita, são construídos, não nascem feitos. A nova deputada federal Marina Magessi, veterana policial carioca, não pode ser apontada como esquerdista, fanática defensora dos “direitos dos bandidos”. Ao contrário: sempre foi vista como “durona” na ação policial. Em recente depoimento à TV Câmara, em companhia do rapper MV Bill, Marina Magessi lembrou que o dia mais difícil da sua vida foi o do assalto ao ônibus da linha 174, em 2000, no Rio, porque teve que prender uma menina de 12 anos, envolvida no incidente. Ela resume o problema, ao dizer que nesses episódios não há algozes: só há vítimas. A menina era tão vítima como Sandro do Nascimento o assaltante, um sobrevivente do massacre da Candelária, que seria assassinado logo em seguida pela polícia, e a jovem Geisa Gonçalves, morta durante a intervenção policial.
“Não é a pobreza que leva ao crime, mas, sim, a falta de inclusão” – disse a mesma senhora, em outra oportunidade. “No Rio, essas crianças não pertencem a nada. Não têm família, não têm igreja, não têm Estado”. Se quisermos ir mais fundo no problema, devemos deixar os limites das favelas, do Rio de Janeiro e do Brasil. Escolhemos nessa pobre cultura universal contemporânea, induzidos pelos meios de comunicação de massa, sobretudo do cinema e da televisão, modelo de vida que pode ser definido como o de pacto com a morte. Passamos parte de nossa vida vendo as balas penetrarem na testa de bandidos ou não, acostumamo-nos com o jorro de sangue e, em certos casos, experimentamos voluptuosa emoção diante dos corpos que tombam. Mesmo os homens mais velhos se recordam da influência do cinema nos jogos infantis - e a violência daquele tempo era quase inocente, diante da que nos chega, pela televisão, todos os dias. Brincava-se, então, de artista e bandido. Os heróis eram artistas, e os vilões, os bandidos. Era o mito da “violência positiva”, que os norte-americanos haviam criado, com suas “short-stories”, destinadas a distrair os trabalhadores imigrantes do início do século XX, que depois passaram a ser filmadas por judeus húngaros, em Hollywood. Ainda que houvesse, em contraponto, a arte de Chaplin e outros, o mito da violência acabou prevalecendo. Chaplin era um realizador para quem conseguia pensar. Hoje, crianças de três, quatro anos, treinam para matar nos vídeo-games, em que, do sangue que espirra dos atingidos pelas balas virtuais, só falta o cheiro da morte. Os super-heróis ganharam a força dos elétrons.
O Brasil não é pior
Há quem debite a violência brasileira ao nosso caráter. É uma conclusão estúpida. O Brasil tem cerca de duzentos milhões de habitantes, e uma exígua parcela dessa população se envolve em episódios violentos, seja no campo ou nas cidades, maiores e menores. Os criminosos não chegam a meio por cento da população. Crimes horripilantes – como os de canibalismo - ocorrem no berço da civilização ocidental, que é a Europa, isso sem falar nos Estados Unidos, onde meninos de dez, onze anos, matam seus colegas de escola a tiro limpo. As penas são pesadíssimas e, em alguns Estados, como o Alabama, o Arizona, e Lousiana, crianças de qualquer idade poderiam ser condenadas à morte até 1º de março de 2005, quando a Suprema Corte proibiu a execução de menores de 18 anos, com base na oitava emenda da Constituição, que proíbe castigos cruéis. Nem por isso a criminalidade juvenil nos Estados Unidos se viu reduzida.
A juíza e a policial
A presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, fez a observação certa: os legisladores não podem agir sob a pressão das circunstâncias. É necessário ver todos os ângulos do problema. No caso, com toda a diferença biográfica entre a jurista e a inspetora de Polícia que se elegeu deputada, as duas se encontram do mesmo lado da razão. Para uma é preciso que a lei esteja dentro da lógica do direito; para a outra, que conhece a realidade de perto, é muito difícil distinguir entre algozes e vítimas. E, já que citamos o rapper MV Bill, não podemos desprezar o seu duro libelo, pelo menos no que toca ao tráfico de drogas. É o viciado da classe média (ele também uma vítima de um modo de vida opressivo) que faz o traficante. E podemos levar o tema mais longe: são os viciados norte-americanos e europeus – e os que “lavam” o dinheiro sujo do tráfico - que promovem o cultivo da coca na América do Sul e o da papoula no Afeganistão, crescente mesmo com a invasão militar estrangeira. É bom não esquecer que os ingleses moveram duas guerras contra a China (a segunda delas aliados aos franceses) porque o governo chinês proibira o uso do ópio, e a puritaníssima Inglaterra, da Era Vitoriana, era exportadora do narcótico, cultivado na Índia, para o grande mercado do Império do Meio. O mundo anglo-saxão tem todas as razões para temer uma revanche amarela.Enfim, estas são algumas reflexões para os que não se divertem com o carnaval.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares

Cordel da Farsa da Transposição



O PODER DA FARSA
Por Araci Cachoeira

Peço licença ao leitor
Para de algo chato eu falar,
Mais do que chato é cruel
O que eu tenho para tratar,
Sobre o atrevimento do homem
Querendo um rio transportar.

Desde que mundo é mundo
O rio sabe onde correr,
É traçado o seu percurso
E o que temos a fazer,
É cuidar da vida dos rios
Preservar é um dever.

Num tempo que já se foi
Chamado de desbravação,
O Rio São Francisco foi o celeiro
O pai da alimentação,
Peixe de toda espécie
Ali tinha de montão.

Quando os povos indígenas
Da natureza cuidava,
As margens do São Francisco
Alimentos não faltavam,
Porque indígena e natureza
A mesma língua falavam.

Mas foi exatamente o fato
De desbravar sem medir,
Que acabou com as matas
Fez o rio diminuir, este tal desbravamento
Fez a fartura sumir.

Sumiu peixes, sumiu matas
Se some a mata, some a caça,
Resseca a terra, acaba as plantas
Falta comida na praça,
O povo é que paga o pato
São as vítimas da desgraça.

Assim foi com muitos rios
Do nosso imenso Brasil
Numa manobra sutil
Secaram muitas nascentes
Deste torrão varonil.

O motivo nós sabemos
Fazer campos de pastagem,
Criar gado foi a razão
Da enorme malandragem,
Que fez os fazendeiros
Levar nascentes à secagem.

Estou começando das nascentes
Para chegar nos afluentes,
Pois elas é que são as veias
Que levam a água em frente,
Secando a fecundação
É claro que o rio sente.

Quero fazer um pedido
Pensem na situação,
Onde brotavam nascentes
Muitos já não têm vazão
O rio São Francisco vai minguando
Por causa da devastação.

Mesmo com esta realidade
Que até leigo compreende,
Falam na transposição
Que pouca gente defende
Pois é uma farsa montada
Que a um jogo de interesse atende.

Parece um ato de loucura
Um delírio uma surtação,
Mas é o que está acontecendo
Na nossa grande nação,
Um projeto faraônico
Chamado transposição.

A vítima de tal desatino
É o Velho Chico famoso,
Que outrora foi navegável
Um tesouro precioso,
Com muita água e peixe
Era um rio farturoso.

Hoje o Rio são Francisco
Nos causa revolta e tristeza,
Ao invés da revitalização
De refazer a beleza,
Falam em transpor o rio
Isso é agredir a natureza.

Quem não consegue entender
A tal de transposição,
Imagine um enorme canal
Que na verdade é uma ilusão
Carregando o São Francisco
Daqui lá pra o Sertão.

Usam a palavra sertão
Para tentar enganar,
O problema do sertanejo
Não é o rio lá chegar,
Para água lá encontrar.

A transposição do rio São Francisco
É uma farsa do poder,
Que usa o nome dos pobres
Dizendo que vai abastecer,
Água para os estados
Que não tem onde beber.

Neste jogo de interesse
Engana-se quem está achando,
Que a água é para os pobres
Onde estaria o rio chegando,
Na verdade serão os empresários
Que ali vão estar mandando.

Esta mega operação
Que vai nos custar bilhões,
É um desastre para o meio ambiente
E não nos dá soluções,
Ignora os ribeirinhos
E outras populações.

Vai continuar sem água
Quem dela hoje depende,
Os projetos de exportação
É o que o império defende,
Sem ter clareza o projeto
O povo pouco entende.

Não se pode transpor um rio
Com a vazão comprometida,
O rio são Francisco pede socorro
Contra esta ação desvairada,
Ao invés de transposição
Protejamos sua vida.

Ao invés de levar a água
Fazer com que ela aumente,
Cuidando das margens do rio
Dos afluentes e nascentes,
Revitalizem o Velho Chico
Sejam um pouco inteligentes.

Hoje se o povo reclama
É por não se conformar,
Depredaram o meio ambiente
E ainda querem tirar,
O que ainda sobrou
Estão tramando acabar.

Como se não bastasse
A tragédia da barragem,
Inventaram esta vergonha
Esta grande malandragem,
Achando que o povo é trouxa
De apoiar a sacanagem.

Aproveitando a oportunidade
Vou aqui esclarecer,
Quem é contra a transposição
Não é egoísmo, não é querer
Ficar com a água para nós,
É questão de defender.

Defendemos um rio comprometido
Que precisa de cuidado,
Porque entendemos que o rio
Hoje está condenado,
A um futuro de extinção
Por um projeto decretado.

Egoísta na verdade
É quem defende a transposição,
Para atender interesses
Do lucro de exportação,
De hortifrutigranjeiros
E também de camarão.

Isto sim é egoísmo
Querer os carentes tapear,
Usando o nome deles
Para um projeto aprovar,
Falam em gerar emprego
Para o povo enrolar.

Se o problema da seca
Fosse assim resolvido,
É claro que ninguém ia se opor
A gente já teria entendido
Mas sabemos que está errado
Este é um plano falido.

Do custo da grande obra
Não precisa nem a metade,
Para aplicar em projetos
Que resolve de verdade,
O problema da falta d’água
Mudando a realidade.

Por que não fazem o certo?
É fácil de entender
Pequenas obras
Não dá fama nem poder,
Uma obra faraônica
É coisa para aparecer.

Cacimbas e captação
Água em armazenagem,
Isto ajuda o povo
Mas não vai dar reportagem,
Por isto é que preferem
Fazer a grande drenagem.

Se aplicar certo os recursos
Tanto lá como cá,
Capta a água no Nordeste
Aqui reflorestamento vai implantar,
Revitalizando as nascentes
Fazendo a água brotar.

O povo do Nordeste
É um povo inteligente,
Sabe avaliar muito bem
Pensar no mais pra frente,
Hoje o que temos a fazer
É cuidar do meio ambiente.

Gritam os povos indígenas
Lamentam os agricultores,
Ribeirinhos, quilombolas,
Estudantes, professores,
Abominam a idéia
Dos insensatos senhores.

Mas já que insistem na burrada
Avisamos mesmo sofrendo,
Vai haver uma tragédia
O povo está se movendo,
Que a obra vai ser barrada
Todos estão sabendo.

A mobilização já é grande
Para o projeto embargar,
O povo de mala e cuia
No local vai acampar,
Vão ter que pensar duas vezes
Se não vão se ferrar.

Vamos por o pé no barranco
Nós não vamos desistir,
Se é briga que quer o poder
A briga vai existir,
Em torno do Rio São Francisco
Muita gente vai se unir.

Não pensam que vai ser fácil
Com esta farsa do poder,
Do lado de lá tem a grana
Mas do lado de cá tem o querer,
De um povo que está disposto
O Velho Chico defender.

Pelo Rio São Francisco
Contra a transposição,
Uma corrente de forças
Um esforço, um mutirão,
O povo já se levanta
“Dizendo o rio não vai não”.

Belo Horizonte, 09/10/2006

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Palavrões

As duas piores ofensas que um ser vivo pode sofrer é ser chamado de Diogo Mainardi ou de Jorge Bornhausen.
Nem nossos piores inimigos merecem uma humilhação dessas!

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Galera, leiam esta entrevista sobre a transposição!




Sei que estou insistindo muito neste tema, mas é uma quetão grave o que o governo Lula está querendo fazer para ajudar seus amigos empreiteiros.

“Dizer que transposição resolve problema da água é mentira” (Entrevista Henrique Cortez - Articulação no Semi-Árido Brasileiro) Agência Carta Maior22/12/2004
ESPECIAL SÃO FRANCISCO
Para o consultor da Articulação no Semi-Árido (ASA), Henrique Cortez, este projeto de transposição do São Francisco não garantirá o acesso à água àqueles que tanto precisam do recurso. Nesta entrevista, ele afirma que o governo Lula sabe disso e mesmo assim insiste na idéia. Bia Barbosa 22/12/2004 Recife – A Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) é uma rede de mais de 800 organizações da sociedade civil – entre sindicatos de trabalhadores rurais, associações de agricultores, cooperativas de produção, igrejas católicas e evangélicas e ONGs ambientalistas – que trabalham pelo desenvolvimento social, econômicos, político e cultural de uma das regiões mais excluídas do país. Criada em Recife em 1999, durante o Fórum Paralelo à Conferência de Combate à Desertificação e à Seca, a ASA vem se consolidando como um espaço coletivo de centenas de experiências de uma grande parcela da população brasileira que luta todos os dias por um semi-árido justo e igualitário. Deixando de lado o falso discurso de combate à seca, a articulação atua na proposição e implementação de políticas públicas que promovam a convivência com as condições climáticas locais para garantirem o desenvolvimento sustentável nos onze Estados que englobam a região. Um dos principais projetos da ASA é o P1MC – Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semi-Árido: Um Milhão de Cisternas Rurais. O programa tem como meta construir, em cinco anos, um milhão de cisternas de placas na região, que proporcionarão água limpa e de qualidade para cinco milhões de pessoas. Em pouco mais de um ano, o P1MC construiu 50 mil cisternas, que já beneficiam 260 mil pessoas, e possibilitou o aumento da frequência escolar, a diminuição do número de pessoas com doenças em virtude do consumo de água contaminada e a geração de emprego e renda para os morados das comunidades onde as cisternas foram construídas. É nessa linha de convivência – e não combate – com o semi-árido que as organizações que integram a articulação têm se posicionado fortemente contra o projeto governamental de transposição do rio São Francisco. Na última série de reportagens especiais da Agência Carta Maior sobre o tema, uma entrevista com Henrique Cortez, jornalista, engenheiro, ambientalista e consultor da ASA, acerca desta polêmica, concedida durante o Fórum Social Nordestino, realizado no último mês em Recife. Nesta boa conversa, Cortez explica porque é inviável fazer a transposição do Velho Chico antes de sua revitalização, os interesses que estão por trás de quem banca do projeto dentro do governo e qual seria a chance de barrar essa transposição tão questionada por aqueles que têm sede e que, na teoria, seriam os mais interessados em receber as águas do São Francisco.
CM - A ASA defende, antes da transposição, a revitalização do São Francisco. Ideologicamente você é contra a transposição?
Henrique Cortez – É uma história complicada. Transposição significa tirar água de uma bacia hidrográfica e levar para outra. É uma tecnologia de mais de 100 anos, o mundo inteiro faz isso. A cidade de São Paulo recebe água de transposição do rio Piracicaba. A cidade do Rio de Janeiro idem. Existem casos de transposição excelentes e existem desastres. O problema não está na transposição, mas na concepção técnica e na realização da transposição. Tecnicamente falando, como engenheiro, eu diria que é muito simples. Ideologicamente, como ambientalista, também sei que é perfeitamente possível fazer isso de forma responsável, com danos ambientais facilmente mitigáveis, sem grandes dramas. Uma barragem causa muito mais estrago. A questão não está nisto. A questão é que os três temas mais relevantes não estão sendo atendidos neste projeto – que é o mesmo projeto do governo anterior (as mudanças são mínimas) e que não deve ter sido muito diferente do projeto do D. Pedro II, de 1847. O primeiro deles é a revitalização do São Francisco. Não existe banco de sangue que aceite doação de doador anêmico. O rio está morrendo. O mar já entrou 50 km dentro do rio, já se pesca robalo, que é um peixe exclusivamente de água salgada, a 50 km da foz. Mas a revitalização é algo complicado, é demorado. Precisa de um grande pacto nacional. Primeiro, recuperar os mananciais, os olhos d’água, as nascentes, fazer a revegetação – são mais de dois bilhões de mudas de árvores a serem recuperadas, milhões de hectares –, acertar a questão fundiária de quem está hoje instalado na área de preservação permanente, a menos de 30 metros do rio. Tem que ter um processo. Na bacia do São Francisco são 450 cidades que não tem saneamento básico. Quem é que faz esse trabalho? O reservatório de Sobradinho é um imenso tanque de decantação. Ele é a estação de tratamento de esgoto da bacia. O primeiro problema é recuperar o rio, tratar, ordenar as outorgas, fazer com que as pessoas não peguem água no meio do dia com um poço, com um cano de duas polegadas e um motor de 3 hp com um pivô central jogando água na atmosfera. A outorga é uma autorização para a captação de água. Tudo que se refere a poços não requer outorgas, porque, pela legislação, o poço é o que se chama de captação insignificante, não causa um impacto no volume da disponibilidade hídrica da região onde se encontra. Agora, se você vai fazer um poço artesiano ou um poço de águas profundas, onde há bombeamento, você precisa de outorga. Se você vai retirar um pouco de água de um córrego, precisa de água. E por aí vai. Num reservatório é a mesma coisa. Acontece que, no Brasil, para cada outorga, para cada sujeito que está com um cano enfiado no rio tirando água, há 100 captações sem outorgas, ou seja, retirada ilegal. É por isso que a conta não fecha. Mas ninguém está falando em revitalização, que é algo complicado e caro, é um projeto de longo prazo. Não é “do” governo; tem que ser “de” governo.
CM - É impossível fazer a transposição antes disso?
HC – O rio não agüenta, não tem capacidade de suporte. Foi autorizada a transposição de 26 metros cúbicos/s porque é o que sobra. Os resto dos 360 já está outorgado. O Ministério da Integração Nacional fala que o projeto só vai usar 1% da capacidade do rio. Mas este é um jogo de números. É muito mais simples para as pessoas entenderem que é 1%. Só que 26 metros sobre 360 são 7%. Na verdade, o projeto é de 127 metros cúbicos/s, não de 26. Mas há uma diferença entre vazão máxima autorizada e vazão mínima autorizada. A vazão máxima é de 127 metros, a mínima é de 26, porque não dá para tirar mais. Se um dia os reservatórios sangrarem, aí pode chegar a até 127 metros por segundo. Mas aí está a primeira bobagem. Se o Sobradinho, por exemplo, sangrar, é porque o regime de chuva do semi-árido está extremamente intenso. Se for profundamente intenso, vai se repetir o que aconteceu este ano. Não só Sobradinho encheu. Castanhão encheu, Armando Ribeiro encheu, os grandes reservatórios encheram. Então você está transpondo o que pra onde, se os reservatórios estão cheios? O problema todo é de acesso à água.
CM - Este é o segundo problema?
HC – Exatamente. A capacidade de armazenamento dos reservatórios do nordeste brasileiro é de 37 bilhões de metros cúbicos de água. Teoricamente, a água já existe. O problema é que ela foi mal gerenciada, mal tratada. Veja a questão da evaporação no semi-árido. Em tese, um reservatório que tem, por exemplo, 2 bilhões e 400 milhões de metros cúbicos de água, em condições normais de temperatura e pressão, mesmo que não chova 5 anos, dado o número de outorgas concedidas, deveria durar dez anos. Ele seca em dois. Num reservatório, é preciso quatro litros de água para que nós possamos usar um; três litros irão evaporar. No Brasil, a evaporação no semi-árido é três vezes maior do que a precipitação. Por isso que em países como a África do Sul o açude tem uma tampa. Pra diminuir a evaporação. Se o sistema não for aperfeiçoado, você pode jogar água à vontade que ele evapora. O problema do nordeste não é fome, é água. Se tem água você produz alguma coisa. Mas muitas vezes você tem a comunidade na beira do rio recebendo água de carro pipa. Às vezes há uma linda área verde, produzindo melão, e uma cerca. Depois da cerca você anda quilômetros só vendo as casinhas de taipa e nada. Então o problema é o acesso a água. E isso pressupõe, primeiro, capital, investimento, e supõe direitos de cidadania e regularização fundiária. Fazer transposição não resolve o acesso a água porque o projeto vai levar a água basicamente para os reservatórios. E os grandes reservatórios ou atendem a áreas urbanas ou a produção irrigada. E a produção irrigada não é do seu Zezinho nem da dona Mariazinha.
CM - Mas se isso já é sabido, por que se está trabalhando com o mesmo projeto? Como é que se cai no “conto do vigário” de que o projeto vai levar água para quem não tem?
HC – Esse é o discurso. “Vamos levar água para quem tem sede”. Estão trabalhando com o mesmo projeto porque é rápido, tem efeito pirotécnico, dá discurso, dá palanque, tem placa. Como é que você inaugura um projeto de revegetação? Como é que você põe placa em 50 mil mudinhas? Essa é a razão. É uma obra simples de fazer e rápida. São três transposições diferentes em cascata. Primeiro, a do São Francisco; daqui de três a cinco anos, a transposição do Tocantins para o São Francisco; e daqui a dez anos a transposição do Tocantins para o Parnaíba, que é mais fácil ainda de fazer porque são 90km de distância de um para o outro. O problema é que o Tocantins é um rio amazônico, com um regime de chuvas de monção: seis meses com muita chuva e seis meses sem água. Por sorte, o período de cheia do Tocantins coincide com o período de seca do nordeste. Mas é um bioma diferente. Transpor água do São Francisco para o semi-árido não altera o bioma, é a caatinga. Mas transpor do Tocantins para o São Francisco são biomas diferentes. E aí você vai migrar a característica biológica de um rio que a natureza tomou o cuidado de separar para outro. É um processo de bioinvasão. Você vai ter elementos de um bioma sendo instalados em outro. E ninguém sabe o que vai acontecer.
CM - Qual o terceiro problema?
HC – A terceira questão é o modelo de desenvolvimento, um problema que o Brasil tangencia. Nesse modelo de desenvolvimento há dois componentes que têm que ser pensados. Primeiro, este é o modelo do agronegócio exportador. Este é um projeto feito para o agronegócio exportador. A transposição do Tocantins para o São Francisco leva água para o oeste da bacia, que é a nova fronteira de expansão do agronegócio na Bahia. E levar do Tocantins para o Parnaíba é levar exatamente para a nova fronteira de expansão do cerrado. É uma questão antiga e inquestionável: construir toda uma estrutura complicadíssima de gestão, com problemas seríssimos, para atender, de verdade, os problemas do agronegócio exportador. Há outra situação: o problema do cerrado. Onde estão hoje as principais nascentes do São Francisco? No cerrado. Você cria um processo de transposição para levar água para o agronegócio, que está expandindo para o semi-árido, que tira água de onde você tira para levar para o agronegócio. No momento em que você avança para o cerrado, vai desmatando e esgota as nascentes. Você vai matando os olhos d’água e tirando a capacidade de recarga da bacia do São Francisco. É um projeto do rabo abanando o cachorro. Então há uma série de questões de acesso à água, de cidadania, de regularização fundiária, de manejo dos recursos dos açudes, a questão das outorgas... são questões muito ligadas às necessidades da população do semi-árido não estão sendo contempladas neste projeto. Então é um megaprojeto, vai beneficiar as empreiteiras, vai levar água pra quem já tem e as questões mais importantes não estão na discussão. Portanto, eu sou contra este projeto de transposição no seu conteúdo técnico, social e pela sua irresponsabilidade de gestão de modelo de desenvolvimento. Esse projeto é um equívoco do começo ao fim.
CM - Mas pode existir um projeto de transposição que seja tecnicamente e socialmente correto do São Francisco?
HC – Claro, de qualquer bacia. Como? Revitaliza o São Francisco. São 30 anos trabalhando sério. Aí você voltou para os 2800 metros cúbicos/s e não mais para 1800. Vamos chegar na cota máxima do rio em 30 anos. Saneamento, reflorestamento, manejo de água, uso sustentável, combate ao desperdício, todo mundo usando cisterna. Em 30 anos o rio está recuperado. Aí dá para transpor. Além disso, é preciso tomar a decisão sobre o acesso a água. Eu posso levar para os reservatórios, mas é preciso criar um mecanismo que permita que o seu Zezinho e a dona Mariazinha, que não têm outorga, não têm terra, que não têm posse, nada, tenham acesso a água. Não é complicado de fazer, nem é caro.
CM - Mas depender regularização fundiária para fazer a transposição do rio é algo complicado... HC – Então por que o governo está querendo a transposição? Porque ele tangencia os problemas. É a famosa resposta sem pergunta. É um palanque muito interessante. As empreiteiras vão ficar felizes, etc. Porque fazer a revitalização, plantar árvores, fazer coleta de sementes, transportar a planta é algo que a população faz, e não a empreiteira. Se formos incompetentes, a revitalização do São Francisco gera um milhão de empregos para essa população. É um monte de gente envolvida. O cálculo correto é de uma pessoa por hectare revitalizado. Se estamos falando de dois milhões de hectares, o cálculo é de dois milhões de empregos. Se formos muito incapazes, um milhão. Então qual o problema em fazer a revitalização?
CM - Por que pessoas como Antônio Carlos Magalhães estão contra o projeto?
HC – Eu nunca imaginei estar do mesmo lado que Antônio Carlos Magalhães. Estou fazendo até terapia por causa disso... (risos). Só dispensei o terapeuta porque nós não estamos falando a mesma coisa. O discurso do Antônio Carlos Magalhães é: pode transpor desde que traga água do Tocantins pra Bahia. Porque o rio Sono é justamente na junção com o oeste baiano, que é exatamente na nova fronteira do agronegócio baiano. Quem está em Petrolina é contrário porque, lá, o que se produz é de exportação ou de consumo no sul e sudeste. Se você tem condições de expandir com a transposição – que vai garantir que o reservatório do Castanhão (CE) nunca vai ficar com menos de 3 milhões de metros cúbicos –, pra onde avança a fronteira agrícola de exportação? Para o Rio Grande do Norte, pro Ceará. E é isso que eles estão temendo. Vão perder mercado. É óbvio.
CM - Na sua opinião ainda é possível barrar este projeto?
HC – Sinceramente? Entendo que esse projeto vai sair. Embora exista este processo de uma vontade imperial, autoritária e autocrática, até messiânica de “eu vou salvar o nordeste”, não é essa a questão. A vontade imperial poderia até sofrer num enfrentamento. Acontece que este tema não mobiliza a sociedade. As pessoas ainda têm no imaginário a imagem da seca do nordeste de 1951 a 1954. Aquela imagem da terra esturricada, de milhares de animais mortos, das pessoas se arrastando pelo sertão. Esse imaginário – e que não é um livro, porque isso aconteceu mesmo e não há muito tempo –, quando proposto para o sul ou o sudeste – onde está a maioria da população, os jornais formadores de opiniões, o poder econômico, as grandes decisões –, quando alguém diz “eu tenho um projeto que é polêmico, mas que vai salvar o nordeste e vai levar água a quem tem sede e que, com isso, aquela imagem migrante completamente desgraçado não vai se repetir, as pessoas dizem “tá valendo”. O bem maior justifica. Os fins justificam os meios. O interesse do todo supera qualquer interesse individual. É um jogo de imaginário, um jogo muito perverso.
CM - O que há existe de acerto do ponto de vista político?
HC – A questão já está resolvida, o dinheiro já está empenhado. Não saiu a licitação ainda mas a empreiteira já está contratada. Essa parte burocrática já está resolvida. E vai sair porque é muito mais fácil fazer a transposição do que a revitalização. Segundo, porque é engenharia, dinheiro e empreiteira. E você vai levar a água pra quem já tem poder e interesse econômico, que é o agronegócio exportador. Então é ação entre amigos. E eles estão carecas de fazer isso. Não dá pra mudar porque o trem já está andando. E a experiência de movimento social demonstra que, embora você possa ter movimentos resistentes no país inteiro, a canoa só vira quando se consegue a adesão dos movimentos sociais do sul e do sudeste – essa história é verdadeira desde a proclamação da República. Então criou-se um negócio muito perverso por estar-se lidando com o imaginário: criou-se uma secção do país. Este lado de baixo, que tem energia e demanda pra fazer pressão, vai pagar a conta, mas não vai participar do processo não vai participar do processo, porque esses movimentos refluem na medida em que não têm contato com o semi-árido.
CM - Em quantos anos o processo termina? O governo Lula ainda corre o risco dele próprio pagar por este erro que está cometendo?
HC – Em um ano e meio você põe a obra funcionando. Fecha o primeiro ciclo da transposição, que é o eixo norte, em três anos. Em cinco anos você percebe se aquilo deu certo ou não. Toda grande decisão tem este preço.
CM - Pela sua linha de raciocínio, o Ministério da Integração Nacional sabe exatamente o que está fazendo e os interesses de quem está atendendo. O presidente Lula também?
HC – Me preocupa muito o argumento usado pelo Lula de que o projeto é para levar água para quem tem sede. A partir dessa abordagem, a mentira ficou evidente. “Vamos levar água para expandir a capacidade econômica do nordeste”. Ok, o argumento é verdadeiro. Se é justo, essa é outra discussão; mas é verdadeiro. Agora, levar água a quem tem sede, não. Eu tenho a clara impressão de que o presidente Lula é um homem – a história dele mostra isso – extremamente sensível e inteligente. Capaz e extremamente perceptível. Então não acredito que ele esteja inocente nessa história.
CM - Então não há como alterar este projeto definitivamente?
HC – Só tem um componente complicado nessa história. Pela primeira vez na história do Brasil desde a Guerra do Contestado e da Revolução Farroupilha existe uma crise federativa no país. Você tem os Estados doadores da bacia (MG, BA, PE, AL e SE) terminantemente contra e os Estados receptores (PB, RN e CE) a favor. No Nordeste, é a primeira vez que eu ouço falar que tem um Estado que está falando uma coisa que não é a mesma que o outro.
CM - E como fica isso num projeto que tem como ministro uma pessoa eleita pelo Ceará (Ciro Gomes)?
HC – São 26 metros cúbicos que serão transportados. Cinco metros cúbicos irão para o RN e PB; 21 irão para o CE, para o Castanhão, que é o maior açude do Brasil. Vai chover na horta de quem?
CM - Como resolver esta crise federativa?
HC – Levar a discussão para o Senado. Lá o agronegócio não domina. O Senado é dominado pelo segmento industrial ou pelo grande interesse econômico. E esse não está gostando dessa brincadeira, porque vai pagar a conta. Porque quando se reduzir 1% da energia elétrica para a transposição – e o rio São Francisco responde por 95% da energia do nordeste – a energia vai ter que ser composta. E não se pode trazer a energia de Itaipu para o nordeste; você vai ter que colocar termelétrica aqui. E as termelétricas entram na cláusula de energia emergencial, ou seja, na conta de todo mundo. Portanto, aquele gaúcho de Santana do Livramento vai pagar a conta também. Só que as indústrias não vão querer pagar essa conta. O problema é que este debate no Senado só vai acontecer depois que a obra começar, porque o legislativo não tem força para impedir nada porque não há especificidade na legislação brasileira que diga que isso tem que ser discutido no Congresso. Isso é obra do executivo. Mas, depois, o Senado pode interromper e embargar a obra por causa da crise federativa através de um decreto legislativo. Este é o único lugar em que o projeto de transposição está vulnerável, porque as bancadas do sul e do sudeste não querem. O cara pode ser do PMDB e ter um cargo no ministério, mas na hora em que o patrão dele, da Fiesp, disser “eu não vou pagar a conta dessa energia elétrica maluca”, ele assina embaixo. Agora isso só vai acontecer quando a crise for instalada. E isso ainda não existe.
CM - Aí pode ser tarde demais?
HC – Se isso acontecer, a obra já vai estar na metade. Vai ser no final do período legislativo de 2005, entre outubro e novembro. Isso não acontece antes porque a questão não é salvar a pátria. É salvar a pátria “de quem”. E quem fez essa bobagem? Ciro Gomes? Não. Lula. “Um irresponsável, que não tem capacidade de dirigir um país como esse”. É isso que vamos ouvir. Eu não acredito que ele seja inocente. Entretanto, existem outros movimentos de subterrâneo que estão chocando o ovo da serpente. Onde é que o presidente está embarcando no erro? No timing. Na visão do Lula, ele começa a obra em 2005 e vai começar a pingar água de 2006 pra 2007. O Lula está apoiando o projeto porque ele acha que essas coisas vão andar em curso, o que não é verdade



Como vocês podem ver, a transposição do Rio São francisco é uma balela! Protestem!!!